domingo, 25 de setembro de 2016

Uma das melhores maneiras de dizer "Eu Te Amo" sem dizer.

Te cuida - Martha Medeiros




A gente sai de casa para ir numa festa ou para pegar a estrada, e antes que a porta atrás de nós se feche, ouvimos a voz deles, pai e mãe: te cuida. A recomendação sai no automático: tchau, te cuida. Um lembrete amoroso: te cuida, meu filho. A vida anda violenta, mas a gente não dá a mínima para este "te cuida" que a gente ouve desde o primeiro passeio do colégio, desde o primeiro banho de piscina na casa de amigos, desde a primeira vez que saímos a pé sozinhos. Pai e mãe são os reis do "te cuida", e a gente mal registra, tão acostumados estamos com estes que não fazem outra coisa a não ser querer nosso bem e nos amar para todo sempre, amém.
No entanto, lembro da primeira vez em que estava apaixonada, me despedindo dentro do carro, entre beijos mais do que bons, com aquele que devia ser um moleque mas para mim era um homem, e um homem estranho, uma vez que não era pai, irmão, primo, amigo ou colega. Depois do último beijo, abri a porta do carro e, antes de sair, ouvi ele dizer com uma voz grave e sedutora: te cuida.
Me cuidarei, pode deixar. Me cuidarei para estar inteira amanhã de novo, para te ver de novo, te beijar de novo. Me cuidarei para me tocares com suavidade, para nunca encontrares um arranhão sobre a minha pele. E cuidarei do meu humor, dos meus cabelos, cuidarei para não perder a hora, cuidarei para não me apaixonar por outro, cuidarei para não te esquecer, vou me cuidar.
Me cuidarei ao atravessar a rua, me cuidarei para não pegar um resfriado, me cuidarei para não ficar doente. Me cuidarei, meu amor, enquanto estiver longe dos teus olhos, nos momentos em que você não pode cuidar de mim.
Fica a meu encargo voltar pra você do mesmo jeito que você me viu hoje. É de minha responsabilidade não ficar triste, não deixar ninguém me magoar, não deixar que nada de ruim me aconteça porque você me ama e não agüentaria. Claro que me cuido, nem precisava pedir.
Te cuida, dissera ele. E eu ouvi como se fosse um te amo.
Meses depois, terminado o namoro sem beijos de despedida, saio do carro trancando o choro, ainda que o rompimento tenha sido resolvido de comum acordo. Abro a porta e já estou com uma perna pra fora quando ouço, sem nenhuma aflição por mim, apenas consciência de que não teríamos mais notícias um do outro: te cuida. Me cuidei. Só chorei quando já estava dentro do elevador.

Esse texto mostra que existem palavras e atitudes que substituem o "Eu Te Amo", o que precisamos é estar atentos a esses pequenos sinais, gestos de cuidado e carinho, que só temos com quem amamos. Isso em muitos momentos é melhor do que um "Eu Te Amo", dito por costume.


Léia Viana


domingo, 18 de setembro de 2016

Exposição Marginália

Você mora ou irá para São Paulo até o dia 30 de outubro?

A Biblioteca Mário de Andrade esta com a exposição Marginália, por Thiago Limón , paulistano da Vila Guilherme, formado em Comunicação Visual pela Escola Panamericana de Arte e Design e Bacharel em Comunicação Visual pelo SENAC.


“Subversivos. Transgressores. Insurgentes. Desobedientes. Rebeldes. Há muito tempo, pessoas que resistem à autoridade e ao controle recebem o rótulo de marginais. Pensar o mundo que nos cerca de modo diferente e com olhar crítico é também agir contra o senso comum. A história nos mostra que, nas margens da sociedade, aparecem heróis. A rebelião social tem uma trajetória longínqua que nos leva até o filósofo Sócrates , forçado a tomar cicuta por estimular os jovens a pensar por si mesmos – um dos primeiros assédios ideológicos de que se tem notícia. Quando a ordem estabelecida está ameaçada, todas as engrenagens de poder que os detentores de privilégios possuem são utilizadas para difamar, desqualificar e marginalizar seus opositores, a fim de distorcer os verdadeiros sentidos das reivindicações. Uma democracia de verdade pressupõe o pluralismo ideológico e a luta pela efetivação de direitos. (...) Essa primeira edição de Marginália proposta por Thiago é uma justa homenagem aos heróis brasileiros que fizeram história por criarem tensões, quebrarem tabus e lutarem por um país mais justo.” (Marcos Pecci – Professor de História da Arte)


Estive na exposição e achei simples, porém, interessantíssima. O artista fez uma breve biografia das personagens que fazem parte da belíssima ilustração feita por ele, são:

- Bailarina italiana Marietta Maria Baderna (1828 – 1870), exilada em um Brasil ainda imperial do século XIX, e que desenvolveu sua dança a partir das influências africanas que encontrou aqui;

- Nise da Silveira (1905 – 1999), única mulher entre os 157 homens que se formaram em 1926 na Faculdade de Medicina da Bahia, atenta aos problemas de saúde  pública decorrentes da desigualdade social do país, enfrentou o sistema de tratamento psiquiátrico agressivo e desumano de seu tempo propondo uma nova maneira amorosa e generosa de enfrentar o transtorno da esquizofrenia;

- João Francisco dos Santos “Madame Satã” , personagem de destaque da malandragem carioca da primeira metade do século XX, que enfrentou com revolta a violência praticada contra sua condição de negro, pobre e bissexual;

- Margarida Maria Alves, a paraibana trabalhadora rural e líder sindical, assassinada a mando de usineiros em 1983,símbolo da luta pelos direitos dos trabalhadores rurais;

- Maria da Penha, militante e defensora dos direitos das mulheres vítimas de violência doméstica;

 - Sérgia Ribeiro da Silva – a Dadá – cangaceira, a “suçuarana” do cangaço, mulher valente, vaidosa, marginal.  

  

“A luta em favor das minorias, a voz dos trabalhadores rurais, a quebra dos paradigmas atribuídos ao feminino e a coragem de erguer a voz contra o abuso e a violência ganham vida em uma série de ilustrações através do traço de Thiago Limón.”

A Biblioteca Mario de Andrade fica na Rua da Consolação, 94 – Centro, próximo do metrô República.

Vale a pena a visita.

Léia Viana

sábado, 17 de setembro de 2016

Vamos ser feliz agora?

O que impede você de ser feliz, sentir a felicidade invadir seu mundo? Você é aquele tipo de pessoa que sempre adia a sua felicidade? “Quando eu me formar serei feliz, quando eu encontrar um namorado, quando a minha promoção acontecer, quando comprar um carro, quando eu emagrecer, quando eu, quando eu, quando eu...”

Por favor, pare! Não se sabote.

Permita-se ser feliz sempre. Não estipule metas para a sua felicidade, não a deixe esperar, viva! Não são os alcances das metas que farão com que você seja feliz, e sim, como você vive, vê e senti o seu mundo. Sua felicidade depende exclusivamente de você e de ninguém mais.

Não se esqueça de se permitir a ser feliz, sempre!


Léia Viana

domingo, 31 de julho de 2016

Poética - Ana Cristina Cesar

“Por afrontamento do desejo 
insisto na maldade de escrever 
mas não sei se a deusa sobe à superfície  
ou apenas me castiga com seus uivos...”
Eu sempre tive muita vontade de ler Ana Cristina Cesar, ou, Ana Cristina C., mas, a dificuldade de encontrar seus livros, especialmente “A teus pés”, aumentava ainda mais minha curiosidade e minha vontade de ler, não somente a esta obra, mas a todos os outros escritos por ela. Pesquisava pela internet, em alguns sites e blogs literários, mas o que havia por lá era muito pouco para saciar a minha vontade de saber um pouco mais.
Sou apaixonada por poesias, desde que me conheço por gente, descobri nos poemas a magia, o enquadramento do mundo e de nossos sentimentos.
“Preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios.”
Fui avisada desta publicação pelo atendente de uma livraria que frequento. É claro que não podia deixar de ter a oportunidade de ler todas as suas obras publicadas. A minha alegria foi ainda maior ao perceber que, além disso, havia muito mais de Ana C. naquele livro. Em um único volume: posfácio e cronologia, desenhos e rascunhos feitos por ela que se revelaria em um belo presente a todos os leitores e fãs.
“é preciso fazer o inventário
do que restou 
e do que levaram 
apesar da grande comoção que ata
parece que ata mãos e pés
e nem desata”
A sensação durante a leitura foi a de que a vida doía em Ana C., era como se fosse, o tempo todo, um soco bem no meio do estômago, que lhe roupava o ar e desnorteava os sentidos “Os poemas são para nós uma ferida.”, difícil ficar indiferente a seus escritos e sair ileso do que se lê. É o retrato de uma época que não se passa, é a vida, é o amor, é apenas a beleza, a alegria, a tristeza e a dor e agonia de viver em palavras, versos, poemas.
 “Tarde aprendi
Bom mesmo
É dar a alma como lavada.”
Adorei a capa, o seu colorido que é a cara das décadas de 70 / 80, o título e a cor de suas folhas, delicadamente amareladas, como se quisesse passar a sensação de que o tempo havia passado. Tudo muito carinhosamente caprichado, sem perder a autenticidade da época em que foram escritos. 
São poemas, frases, cartas, fragmentos de textos, desenhos, que, passe o tempo que passar, jamais deixará de ser atuais.
“Não, a poesia não pode esperar.”
Leitura recomendada!

Sobre a escritora:

Ana Cristina Cruz Cesar, conhecida como Ana Cristina Cesar (ou Ana C (1952  - 1983), nasceu no Rio de Janeiro. Formada em letras pela PUC-Rio, mestre em Comunicação pela UFRJ e em teoria e prática de tradução literária pela Universidade de Essex, na Inglaterra, É considerada um dos principais nomes da geração mimeógrafo da década de 1970, e tem o seu nome muitas vezes vinculado ao movimento de Poesia Marginal. Participou da antologia 26 poetas hoje (1976), foi poeta, jornalista, tradutora e crítica literária. Filha do sociólogo e jornalista Waldo Aranha Lenz Cesar e de Maria Luiza Cruz. Antes mesmo de ser alfabetizada, aos seis anos de idade, ela ditava poemas para sua mãe. Começou a publicar poemas e textos de prosa poética na década de 1970 em coletâneas, revistas e jornais alternativo. Cometeu suicídio aos trinta e um anos, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, no oitavo andar de um edifício. Armando Freitas Filho, poeta brasileiro, foi o melhor amigo de Ana Cristina Cesar, para quem ela deixou a responsabilidade de cuidar postumamente das suas publicações. O acervo pessoal da autora está sob tutela do Instituto Moreira Salles. A família fez a doação mediante a promessa dos escritos ficarem no Rio de Janeiro. Contudo, sabe-se que muitas cartas de Ana Cristina Cesar foram censuradas pela família, principalmente as recebidas do escritor Caio Fernando Abreu.

Suas Principais obras:

 Poesia

"A Teus Pés" (1982)
"Inéditos e Dispersos" (1985)
Novas Seletas (póstumo, organizado por Armando Freitas Filho)

Crítica

Literatura não é documento - (1980)
Crítica e Tradução - (1999)

Variados

Correspondência Incompleta
Escritos no Rio (póstumo, organizado por Armando Freitas Filho)
Escritos em Londres (póstumo, organizado por Armando Freitas Filho)
Antologia 26 Poetas Hoje, de Heloísa Buarque
                                               Léia Viana

sábado, 30 de julho de 2016

As mudanças em nossa vida

"Como todos os humanos, assumimos a experiência original do desamparo e de todas as ausências com as quais multiplicamos nossos desejos. Por isso, talvez cantamos, quando a sorte é escassa." (Marcos Rolim e Jorge Branco)

É muito difícil manter a mesmice de sempre em nossas vidas, quem dirá os gostos, as amizades entre outras coisas, afinal estamos nessa imensa roda gigante chamada vida, e ela não para de girar e de nos proporcionar tudo o que permitirmos e aceitarmos, ou não, que aconteça.
E por isso, continuamente, somos surpreendidos pela dinâmica da vida, que mexe com a nossa personalidade, nossas emoções, a maneira de pensarmos, de agirmos entre tantas outras coisas. E comigo isso não foi diferente.Sempre gostei de ler e escrever, o que me levou a ter um blog em outra plataforma, mas ela era instável, ficava fora do ar e mesmo assim eu continuava insistindo até que interrompi as postagens.
Senti muita falta de escrever, mas como a vida sempre acontece e as mudanças são inevitáveis, vivi todas as transformações que ela me ofereceu. Abri os braços para o novo, para a nova paisagem em minha volta e fui viver.
Ri, chorei, me surpreendi, gostei, discuti, relevei, mudei, me aborreci, as pessoas mudaram, o cenário mudou e eu estou aqui, de volta a escrita. Não tive coragem de desativar o outro blog, tampouco seguir com ele, pois, como acontece com todo o processo de mudança, percebo que ele foi uma parte de mim que hoje esta diferente e precisava de um cenário novo... Por isso estou aqui, de volta ao mundo do blog.

Léia Viana