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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Desafio literário: 12 livros para 2017 - 1/12



Título: Um Lugar Na Janela 2
Sobre: Relatos de Viagem
Escritora: Martha Medeiros
Editora: L&Pm Editores
Páginas 176
♡♡♡♡♡



Eu literalmente viajo quando leio algo escrito por Martha Medeiros. Seu olhar sobre o mundo e suas palavras para descrever os sentimentos, a cultura, o ambiente me fascinam! Já li muitos livros citados em suas crônicas e foram leituras prazerosas.


“...no final das contas, não há quem não tenha um acervo pessoal de discos, livros, fotos, bilhetes e demais sinalizadores de como nos tornamos quem somos. Na improbabilidade de alguém reunir tudo isso numa sala de museu, há quem faça a curadoria da sua própria história através do Facebook.”

Não sou uma viajante, isso aconteceu muito pouco em minha vida até o momento, neste livro, sentei na poltrona ao lado da ”janela” e desfrutei de páginas e mais páginas de aventuras e fui sendo a expectadora do acervo de viagens dessa escritora que sempre me encanta com suas crônicas. Senti que, ao contrário do livro 1, neste Martha está mais sentimental, parece que as viagens contribuíram bem mais para os sentimentos dela, para o enriquecimento interno. 

“Eu viajo para resistir à hostilidade humana, à crueza dos costumes, ao tique-taque insano dos relógios. Viajo porque sou consciente do quanto viver é difícil e porque não quero ser engolida pela descrença e pela desesperança. Viajo para celebrar a vida no que ela tem de mais sagrado: suas sutilezas, delicadezas, instantes mágicos, sintonias.”

Gostei muito, fiquei com vontade de fazer as malas e traçar uma rota pegando dicas de lugares que Martha foi. Curtir as pessoas, sua cultura, olhar novas paisagens e sair do lugar comum. Experimentar o novo que as viagens nos proporcionam.

Leitura recomendada!

Léia Viana

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Invisível para os outros, extremamente visível para si mesmo.


"Hoje, as pessoas só confirmam existência quando estão em público. No entanto, creio que é justamente quando estamos misturados aos demais que nos tornamos invisíveis. Acabamos infiltrados na manada e compartilhamos opiniões originadas do senso comum, tudo pelo senso comum, tudo pela ansiedade de fazer parte de alguma coisa. Já ao nos concedermos momentos de isolamento, entramos em real conexão com nossos desejos, processamos as experiências vividas e esculpimos silenciosamente o homem e a mulher que estamos nos tornando. Ficar sozinho não é estar abandonado, ao contrário: é encontro dos mais sagrados. Invisível para os outros, extremamente visível para si mesmo."

Martha Medeiros

Gosto muito da maneira como Martha Medeiros descreve o existencialismo no mundo contemporâneo. Com textos em formato de crônicas e uma escrita bastante sagaz, difícil não refletir em alguma paragrafo, frase ou até mesmo no texto inteiro.

Léia Viana

domingo, 25 de setembro de 2016

Uma das melhores maneiras de dizer "Eu Te Amo" sem dizer.

Te cuida - Martha Medeiros




A gente sai de casa para ir numa festa ou para pegar a estrada, e antes que a porta atrás de nós se feche, ouvimos a voz deles, pai e mãe: te cuida. A recomendação sai no automático: tchau, te cuida. Um lembrete amoroso: te cuida, meu filho. A vida anda violenta, mas a gente não dá a mínima para este "te cuida" que a gente ouve desde o primeiro passeio do colégio, desde o primeiro banho de piscina na casa de amigos, desde a primeira vez que saímos a pé sozinhos. Pai e mãe são os reis do "te cuida", e a gente mal registra, tão acostumados estamos com estes que não fazem outra coisa a não ser querer nosso bem e nos amar para todo sempre, amém.
No entanto, lembro da primeira vez em que estava apaixonada, me despedindo dentro do carro, entre beijos mais do que bons, com aquele que devia ser um moleque mas para mim era um homem, e um homem estranho, uma vez que não era pai, irmão, primo, amigo ou colega. Depois do último beijo, abri a porta do carro e, antes de sair, ouvi ele dizer com uma voz grave e sedutora: te cuida.
Me cuidarei, pode deixar. Me cuidarei para estar inteira amanhã de novo, para te ver de novo, te beijar de novo. Me cuidarei para me tocares com suavidade, para nunca encontrares um arranhão sobre a minha pele. E cuidarei do meu humor, dos meus cabelos, cuidarei para não perder a hora, cuidarei para não me apaixonar por outro, cuidarei para não te esquecer, vou me cuidar.
Me cuidarei ao atravessar a rua, me cuidarei para não pegar um resfriado, me cuidarei para não ficar doente. Me cuidarei, meu amor, enquanto estiver longe dos teus olhos, nos momentos em que você não pode cuidar de mim.
Fica a meu encargo voltar pra você do mesmo jeito que você me viu hoje. É de minha responsabilidade não ficar triste, não deixar ninguém me magoar, não deixar que nada de ruim me aconteça porque você me ama e não agüentaria. Claro que me cuido, nem precisava pedir.
Te cuida, dissera ele. E eu ouvi como se fosse um te amo.
Meses depois, terminado o namoro sem beijos de despedida, saio do carro trancando o choro, ainda que o rompimento tenha sido resolvido de comum acordo. Abro a porta e já estou com uma perna pra fora quando ouço, sem nenhuma aflição por mim, apenas consciência de que não teríamos mais notícias um do outro: te cuida. Me cuidei. Só chorei quando já estava dentro do elevador.

Esse texto mostra que existem palavras e atitudes que substituem o "Eu Te Amo", o que precisamos é estar atentos a esses pequenos sinais, gestos de cuidado e carinho, que só temos com quem amamos. Isso em muitos momentos é melhor do que um "Eu Te Amo", dito por costume.


Léia Viana